
Um ônibus de turismo com estofado brega transitando por ruas esburacadas, "réguinho" jamaicano no rádio e a maior chuva do lado de fora. Foi essa a minha primeira visão da ilha de O'ahu, o suficiente pra que eu começasse desde logo a me sentir o Chevy Chase em uma de suas milhares "Férias Frustradas".
O bode devia estar estampado na minha testa. Claro que tava. Até porque, Cissinha tentava me consolar com "se continuar chovendo a gente vai embora, a gente troca a passagem, a gente vai pra Los Angeles, a gente vai pra qualquer lugar". Mas a bem da verdade a cara dela não estava muito melhor do que a minha. Resignamo-nos, e quase 24 horas depois de termos tomado o avião aqui em São Paulo, fomos deixadas pelo ônibus from hell na porta do nosso hotel em Waikiki.
Sim, demorou uma eternidade, e não foram só os vôos e as conexões. O motorista do busão nos explicou, rindo, que não adianta ter pressa quando se vai ao arquipélago do Hawaii: lá, o tempo é contado em hawaiian minutes. Uma coisa meio Bahia, sacumé, né? Era hora de conter, portanto, nossos ímpetos paulistanos de tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Momento de relaxar e gozar, como diria nossa amiga, a sumidade Marta Suplicy.
Naquela noite chuvosa de inverno (era dia 02 de janeiro de 2004, e fomos descobrir meio tarde que o inverno havaiano é a estação das chuvas) tudo o que a gente conseguiu foi ir ao shopping. Sentiram uma vibe Chevy Chase no ar, né? Às 7 da noite estávamos na cama, mortas de jet-lag, pra acordarmos às 3 da matina com meu pai no telefone, perguntando se a gente "tava dormindo". "Claro, mané, não sabe contar?". É que, pra ele, já eram dez horas, uma diferença de 7 horas de um fuso para outro.
Também, o arquipélago fica no meio do Pacífico, ali perdido, perto de coisa alguma. Quer ver? Pega o mapa. Isso, pega. Dá quase o meio-do-caminho entre América e Ásia. Dizem que do aeroporto de Narita, no Japão, se viaja apenas 5 horas pra chegar em Honolulu, e é por isso que naquela terra tem mais japonês que americano...
Talvez tenha sido sorte de principiante mas, no dia seguinte à nossa chegada, quando madrugamos (depois da ligação infeliz do meu pai não nos foi possível dormir muito mais), vimos um tantinho de sol tentando se esgueirar por entre as nuvens... e às 11 da manhã, o tempo estava tão bonito, que não conseguíamos acreditar. Éramos nós, as meninas Eliezer, no Hawaii, e com sol!!!
Quando você for pra lá, vai ouvir falar muito do rei Kamehameha I (e vai te acostumando, porque todos os nomes desses caras são altamente impronunciáveis). Foi ele que centralizou o governo das ilhas e se autoproclamou monarca. Pelos idos de 1900 vieram nossos amigos americanos com sua mania de colonizar, e você já sabe o resto da história. Falando em história, aliás, é na ilha de O’ahu, onde eu estive, que fica a base naval de Pearl Harbor, cujo ataque foi o estopim pra entrada dos americanos na WWII. Em pleno funcionamento, a existência da base explica a presença maciça de militares pela ilha.
Nesse ataque a Pearl Harbor foi afundada a embarcação USS Arizona. Ela está lá, vazando óleo até hoje, o que turva um pouco a baía, porém ainda dá pra vê-la direitinho sob as águas rasas. Foi construído um Memorial de mármore por sobre os destroços, onde Serviço de Parques Nacionais americano te leva de barco, não sem antes passar um filminho que é bem interessante, porque nele a americanaiada mais ou menos "admite a culpa" pela não prevenção do ataque, já que viram os aviões japoneses no radar mas, como eles nunca acham que alguém vai ter a manha de atacá-los (vibe Osama total), não deram importância. E assim que você chega, é instruído pra que tenha o máximo respeito pois, na verdade, está adentrando uma câmara mortuária - os corpos nunca foram retirados, continuam lá no fundo da baía. De cemitérios interessantes o Hawaii parece estar cheio: há outro que fica dentro da cratera de um vulcão extinto.
Vulcões, no arquipélago, os há pra dar e vender. Minha maior frustração foi não ter ido pra Big Island of Hawaii ver o Kilauea, vulcão que está fununciando (muito bem) por falta de vagas na excursão. Tive que ficar com os vulcões extintos de O'ahu mesmo - pela janela do avião já dá pra reparar que a ilha é toda pontuda. Já no final da praia de Waikiki há um deles, bem famoso, chamado Diamond Head. Querem uma referência pop? O Zeca Camargo lançou um livro meio idiota sobre aquela volta ao mundo que ele fez pelo Fantástico, e cita a vista do topo do Diamond Head como a mais bonita de todas as que ele presenciou em sua andança. Pois é, nós fomos no topo também (e antes de Zeca, aliás), uma subidinha suave no começo, que vai ficando meio íngreme depois, mas nada impossível pra atletas de fim-de-semana como eu. E a vista é uma loucura mesmo, toda a extensão da praia de Waikiki branquiiinha, os prédios altos (muito gramú, ha!), os surfistas e seus long-boards lááá embaixo e as casas lindas de Diamond Head Park. Mas meu vulcão favorito, na verdade, é um ex-vulcão. Um belo dia, o mar entrou na cratera dele, e formou uma baía que hoje é conhecida como Hanauma Bay.
Hanauma Bay é imperdível. Entretanto, se você for visitá-la no primeiro dia, passará todos os outros tentando resistir à tentação de ir lá de novo, pra não deixar de ver as outras coisas legais da ilha. Eu fui duas vezes, o que considero um bom número. É facinho de chegar (o ônibus de linha da cidade leva você lá em meia horinha, descontando, é claro, o tempo que o dito cujo demora a passar) e do topo do morro onde você desembarca, já dá pra olhar pra baixo e ver... a vista da foto do início do post. Babou?
Essa baía é também uma reserva, de modo que na chegada, você tem que passar por um centro de educação e assistir a um filme (obrigatório, com versões em inglês e japonês (!!)) que te ensina o código de comportamento de Hanauma: não pisar nos corais, não tocar em nada, não mijar na água (sim, a uréia maldita que há no seu xixi realmente faz mal aos bichinhos). Você vê o filme, assina um livro e pronto, tá liberado pra alugar equipamento de snorkelling a precinhos módicos (a menos, é claro, que leve o seu próprio) e se jogar.
Eu só tinha feito snorkelling no Espírito Santo, mil anos antes, e fiquei com um certo receio no começo: o tamanho dos bichos é impressionante quando você os vê com a cara dentro do mar, fora que engoli vários litros d'água (e o Pacífico lá nem me pareceu tão salgado, sabiam?) nas minhas tentativas de apnéia. Mas, depois, acostumou (e deu até uma certa vontadinha de aprender a mergulhar com cilindro, idéia da qual acabei por desistir, sacumé, pra evitar a fadiga). Bailes de peixes de todas as cores e formas (que já devem estar meio acostumados com o movimento humano no local, porque nem aparentaram estar muito assustados com a minha presença), moréias de caras feias e, com sorte, tartarugas, são alguns dos seres que você vê ali. Cansou? Deita na areia, tira uma pestana, e depois volta pro mar. Só capricha no protetor solar, pra não ficar com a bunda vermelha como ficou a minha.
Mas nem só do sul da ilha vive O'ahu. Resolvemos, certa manhã, enfrentar a via-crucis que são os ônibus havaianos pra visitar North Shore, lar daquelas ondas medonhas que você vê pela TV nos campeonatos de surf. Três baldeações e duas horas depois, chegamos a Haleiwa, cidadezinha fofa que é como a "porta" pra North Shore. Lá, casas de veraneio dividem espaço com lojas de surf, pousadinhas e galerias de arte. Oferecem-se aulas de surf e mergulho, e diversos artigos estão à venda, relacionados a surf e a artesanato local. O pessoal ali, aliás, parece ter um preconceito contra quem vem de Waikiki: na volta, as duas pessoas pra quem pedimos indicação de caminho fizeram cara feia quando dissemos que estávamos hospedadas lá.
Passamos pela mundialmente famosa Waimea e fomos checar as não menos conhecidas Banzai Pipeline e Sunset Beach. Te digo, xuxu, nesses lugares não dá pra entrar na água nem pra fazer xixi, e não é porque a uréia mata os bichos, não: o mar, ali, vive em permanente estado de ira. Pra ser honesta, não chegamos a ver aquelas ondonas lindas e bem formadas que aparecem nos filmes, e só tinha um surfista dentro da água, tentando ficar em pé na prancha sem sucesso. Me explicaram que é porque o inverno não é estação propícia para o surf. Me disseram, ainda, preu reparar que em Waikiki veria um maior número de longboards, enquanto ali era o lar das pranchas de surf "normais", ou seja lá como os surfistas as chamam.
Além de o lugar ser lindo, serviu preu perder meu preconceito contra o surf. Eu antes enxergava surfista como um criatura de cabelinho parafinado que, chegada a sexta-feira, largava o batente às 18h, amarrava a prancha na capota do gol-bolinha e descia pro Guarujento pra tomar caldo na Enseada. Tava enganada, viu. Os caras respiram surf, comem surf, dormem surf, vivem surf. É o way of life deles, mesmo, algo em que eles acreditam e muito respeitam. Foi quando eu ouvi falar pela primeira vez do Eddie Aikau, lendário surfista e salva-vidas de Waimea, que desapareceu no mar quando a canoa em que estava ficou à deriva (uma tal de sociedade polinésia não sei do quê estava promovendo uma travessia comemorativa entre o Hawaii e o Tahiti) e ele saiu remando na prancha pra buscar ajuda. A Quiksilver estava patrocinando, na época, o lançamento do livro Eddie Would Go, com a história dele, e que só não comprei porque custava exorbitantes 40 dólares. Fui comprar a edição em português, por 20 reau, numa livraria da Estação BF do metrô - nada como ser pobre...
Outra figura carimbada, de quem se ouve falar muito quando se fica em Waikiki, é Duke Kahanamoku (cuma?), campeão olímpico de natação e o cara que, dizem, primeiro introduziu o surf em Waikiki. Há uma estátua dele, de bronze, na beira da praia (assim como de várias outras personalidades havaianas importantes). As estátuas são enfeitadas com "leis" (os indefectíveis colares havaianos de flores), trocados periodicamente porque, sim, as flores são de verdade mesmo. Algo lindo de se ver. Waikiki, aliás, é um lugar muito agradável, a despeito de ser bem touristy. Há jardins, zoológico, aquário e diversas áreas públicas cobertas por grama e flores, onde os habitantes felizes das redondezas levam, a passeio, seus cachorros e coelhos (sim, vi duas pessoas levando coelhos pra passear e concluí ser algo mais ou menos comum por lá).
Em geral, achei os locais felizes e bem humorados - maravilhas que o sol faz com as pessoas (deviam levar um pouco de sol aos londrinos, blé). Claro que os empregados no turismo são treinados pra tratar bem os clientes, e se você for lá, vai ficar de saco cheio de ouvir "aloha" (que serve pra "oi" e pra "tchau, até breve"), e "mahalo" ("obrigado"). Depois de um tempo, você começa a se sentir meio idiota quando entra no ônibus, diz "aloha" pro motorista e ele te olha com cara de cu. Outra palavra que aprendi foi "ohana", que era o nome do meu hotel, e significa "família" - a grande família havaiana. E se resumem a isto meus parcos conhecimentos da língua do arquipélago.
E fiquem tranquilas, pessoinhas fúteis: Ala Moana é o nome de um shopping todo luxo e riqueza, com lindas lojas (inclusive a David and Goliath que, segundo a Nanda, só há lá e em Londres) para vocês estourarem seus cartões de crédito. Há também restaurantes e bares aos montes, e eu recomendo o mai tai, drink típico havaiano, pra quem estiver a fim de protagonizar uma tragediazinha etílica temática.
Tô louca pra voltar pra lá, e dessa vez ver Maui e a Big Island of Hawaii. Vai demorar pra rolar mas, quando e se rolar, prometo não esconder nada.
Aloha e mahalo (ainda não sei dizer 'beijomeliga' em havaiano, portanto...).